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Afrodite in verso

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  • paulacajaty

    RT @anacristinamelo: Não esqueçam da promoção do meu site #Sobrecapa (parceria com @paulacajaty). Sorteio de 12 livros. Em http://bit.ly ...

    by paulacajaty about 9 hours ago

  • paulacajaty

    @cronai basta passar uma faca entre toda a superficie da forma que encosta no pudim, por uma travessa de vidro em cima e VIRAR MTO rapido!

    by paulacajaty Qua, 08 de Setembro de 2010 17:19

  • paulacajaty

    RT @anacristinamelo: Quer concorrer a 12 livros? Então vá lá conferir a promoção do site #Sobrecapa (parceria com @paulacajaty). Em http ...

    by paulacajaty Qua, 08 de Setembro de 2010 11:30

  • paulacajaty

    @Tchirp valeu, Thiago! Superbeijos... (ai, hj virei abobora: voltei ao trab. com esse tempinho horroroso...) Felizmente, so qui e sexta !!!

    by paulacajaty Qua, 08 de Setembro de 2010 11:30

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Contos

"Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos sem direito, que se serve do serviço do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário do seu trabalho." Jeremias 22.13

 

Ele bate no peito, jura que o crime passa ao largo de sua porta. Compra com dificuldade, mas compra original. Mais que tudo, desvia dos camelôs que o interpelam com seus produtos expostos no chão, no plástico amarrado feito pipa para ajudar a correr da polícia. Como se passasse pelas portas do inferno e sentisse o calor das labaredas, e vira a cara.

Um pai de família, classe média. Nunca precisou roubar ninguém. Sua honra era o maior valor, o bridão que soava ao proclamar seu nome, a certeza do mea culpa bem feito a hora da missa.

O computador da família era todo original, comprado nas Casas Bahia. Se não dava para parcelar a despesa com o antivírus, comprava no cartão do banco e parcelava com juros rotativos. Mas não macularia suas convicções. Até que.

Até que lembrou-se de um show raro do Marvin Gaye. 1976. A música que a mãe escutava e, por vezes, o emocionava ao tocar de sopetão no rádio, Goodtimes 98, com uma das mais lindas traduções.

Flertando no email funcional, confessou à colega de trabalho que era sua música preferida, 'I want you', e soube dela que existia aquela música na internet, no Youtube.

No Youtube? ele gelou. Ouviria de novo a música da sua mãe, justo a que ela costumava ouvir na fita cassete. O primeiro presente que ele pôde lhe dar sem pedir dinheiro ao pai. A primeira fita cassete que ele gravou do rádio. Goodtimes.

Entrou lá, youtube ponto com, e pesquisou marvin gay (assim mesmo, sem o 'e') e a pesquisa lhe retornou preciosos resultados, resultados que foram minuciosamente analisados enquanto quase tremia de saudade naquele relembrar sem fim.

Encontrou, com um pouco mais dificuldade, o Rick Astley, a primeira música que dançou com uma menina no play do seu décimo-quarto aniversário.

E então, insatisfeito com a parcialidade dos resultados, jogou os nomes anotados e salvos num arquivo txt no desktop, direto na internet, na caixa de pesquisa do Google.

Rapidshare.

Era só apertar um botão, que levava a outro site, e a outro botão, sucessivamente, até ver uma barra de rolagem. O arquivo chegava zipado, mas isso ele aprendera a fazer num treinamento de informática fornecido pelo trabalho.

Winzip. Windows Media Player.

E lá estava o show inteiro do Marvin Gaye louvando a Deus, 'Ain't no mountain high'. Faltava a tradução, mas já sabia de cor o que a música significava, e então de olhos fechados cantava solto, junto com o Marvin, no inglês que saía. E isso era tão ele, esse atravessar das montanhas da vida, essa subida dificultosa, quase intransponível.

No dia seguinte, fingiu que não notou a estripulia da noite. Chegou no trabalho abafando, contando do show raro e antigo para seus colegas de mesma idade. A glória de ter o que todos queriam. O que não havia a vender.

E o repouso do lar agora se destinava a varrer suas próprias reminiscências empoeiradas, a reconquistar a juventude perdida e ao saudosismo das músicas que tinham verso, que tinham conteúdo, que, como ele, tinham história para contar.

Os vinis foram jogados fora, eram os anos 90, a vitrola não tocava mais e já estava difícil encontrar agulhas. Imprestáveis, os discos ficaram no chão da rua, encostados no poste da calçada (não teve coragem de jogar no saco preto do lixo), e o espaço foi preenchido por um novo tempo de cds e dvds, por aqueles aparelhos prateadamente slim, mais e mais diminutos de teclas eletrônicas e delicadas, que quase não ocupavam seu apartamento de recém-casado.

Agora, quem queria saber de anos 80? Quem queria ouvir o CD do New Kids on the Block e ensaiar suas coreografias na sala? Ele se rodeava de novo dos seus antigos amores, Queen, Abba, BeeGees, Donna Summer.

Rapidshare. Winzip. Winamp.

Uns breves meses de pouca cama e muito download foram suficientes para que se esgotassem os mananciais do passado. Foi conversando com seus novos amigos, amantes da boa música e de shows inesquecíveis, que ele descobriu vários lançamentos que sequer chegavam ao Brasil.

- Essas gravadoras...

O show do Jamiroquai em Verona, o show beneficente para Montserrat, para as pobres vítimas dos furacões, as músicas alternativas, o lounge, o tango eletrônico do Gotan Project, porque nada disso se encontraria nas lojas, e também nem se dava mais ao trabalho de procurar.

O inglês agora era aprendido direto, sem cursos e professores, no site da Amazon e no tradutor do googletranslator. A cota de download estourava, a goela da banda não era larga o suficiente para chupar tudo.

Mas ainda batia no peito, convicto. E buscava justificativas para comer a hóstia. Seus atos eram todos legítimos, afinal, o preço era absurdo, todos sabiam disso.

As gravadoras eram leoninas e sonegadoras, os artistas não ganhavam nada, sobrevivendo da venda de ingressos em shows. E, ainda por cima, como bem frisava, seu uso era doméstico, não-comercial, no máximo umas cópias do rei Roberto Carlos para a sogra, um soft jazz para o chefe, 'Hannah Montana' para usar na festa da filha recém-nascida. Tudo grátis.

- Pecado é alimentar essa indústria do mal. Por que eles não baixam os preços?

No seu afã - e mais novo hobby - de montar uma audio-mídia-dvd-teca privada-particular que contivesse toda a produção fonográfica mundial, urbi et orbi, desde Kraftwerk até A. R. Rahman, transferia toda a culpa para os outros.

- Pirata é quem vende.

Ou, sua maior pérola, desenvolvida depois de muita reflexão sobre os últimos anos em que economizara uma pequena fortuna para montar a estante completa de tudo:

- Acho muito válido ter acesso aos bens culturais disponíveis à população mundial. Se o Paulo Coelho está distribuindo o arquivo de seus livros e o John Mayer se divulga com vídeos gratuitos no Youtube, eu dou valor.

O fato é que ainda não conseguia sair do armário. Ou, aliás, do monitor. E retrucava violento, quando alguém arriscava dizer que a farra um dia poderia acabar.

Nem que os policiais batessem em sua porta. Nem que lhe vasculhassem os mp3's, avi's, ipods, pendrives, notebooks e celulares com toques baixados. Polícia é para pedófilo, repetia, organizando
no álbum de couro os papelotes de sua última compra '3 por 10 real'. O vício era uma mancha preta
que se alastrava pela mão direita, a do mouse, até engolir o corpo todo naquela mácula.

- E Deus lá está preocupado com isso? Pecado é matar.

Baixava filmes, músicas, livros, programas, jogos, monografias, tudo o que se houvesse de baixar. E se não baixava, comprava, que dava menos trabalho, chupava menos a banda, dava menos vírus e ainda tinha a garantia de troca do dono da banca, que tinha cartão de visita e máquina Visa.

Apesar de tanto, continuava enrustido, cada vez mais desavergonhadamente enrustido, levantando bandeiras sobre a abolição do direito autoral em mesa de bar, contando, com galhofa, de quando comprou - depois de tantos anos e para dar de presente, claro - o CD gospel com um adesivo vibrante estampado: 'Pirataria de cd é crime e é pecado'.

- Pirata, eu? Pirata é o Jack Sparrow. Agora... tragam-me o horizonte.

 

 

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Contos

O ponteiro ultrapassava os 160km/h, mas ela nem reparava no painel.

Olhava apenas adiante, ao longe e distante, divisando o horizonte da estrada. Quase não havia outros carros na rodovia vazia e atapetada de folhas que se  desarrumavam com fúria e voltavam ao chão em rodopios suaves com o passar brusco das rodas.

Era o último Carnaval que passaria naquele torpor solitário ao lado dele. Tinham ido à praia, naquela manhã de terça-feira e sequer conseguiram trocar sílabas e palavras. Como de hábito, somente perguntas breves, seguidas de respostas insossas. ‘Quer coco?’, ‘Não, obrigada’; ‘Trouxe protetor?’, ‘Está na bolsa’; ‘Já quer ir?’ ‘É, pode ser’. Juntos há mais de quinze anos. Falaram-se tudo o que se havia para falar. E as palavras se gastaram, se desgastaram, se acabaram, as palavras se foram perdendo dela, se rareando pouco a pouco, talvez o tempo as tivesse levado para nunca mais.

O carro alcançando o pé da serra e ela precisou colocar a música no último volume, algo que preenchesse seu estupor. Queria que o vórtice de sons interrompesse o filme que estacionou em sua lembrança.

Assim que chegaram da praia, depois do banho, ela sentou na cama, indiferente, sem lágrimas. Deitou-se, na rotina do cochilo que sobrevinha ao banho de mar. Encolhida, de lado, fez um esforço para suplantar a própria mudez e falou, brevemente: ‘Eu quero ir embora. Para sempre.’

Ele veio correndo nu do banheiro, atropelando as sandálias do caminho, ainda cheio de espuma na boca. Parou em sua frente, também não podia falar. Ela continuou, serena, fitando o nada. Contou-lhe que dois anos após terem-se juntado, houve algo de incômodo, uma falta que ela não conseguiria explicar. Não soube dizer se foi após as gestações perdidas. Uma vontade de fazer tudo, provar tudo, olhar o que estivesse além de sua sofreguidão. E a cada vez que supria uma dessas vontades, o vazio aumentava, feito um bicho que a comesse pelas entranhas e consumisse sua alegria, sua razão, sugou o brilho que emergia de seu rosto. Tudo fora perdendo o gosto. Contou que não teve coragem de contar a ele da vida dupla, tripla, quádrupla, que levava ao seu lado, e que a foi emudecendo. Durante aqueles anos todos, a cada ausência dele, trepava com quem aparecesse, homens, mulheres, em relações fragmentadas, múltiplas e clandestinas.

Já de boca limpa, ele se sentou ao pé dela, na cama enorme de casal, em cima da cara colcha de seda, dentro do quarto decorado com motivos provençais, naquele lar ideal de qualquer mulher de quarenta anos. Havia escutado tudo, numa das poucas vezes que se dispôs a ouvir. Olhou para a parede coberta de armários planejados e, por um momento, reparou que tudo estava em seu devido lugar, tudo exato, bonito, novo, rico. E nada disso se mostrava suficiente. Nem para ela, nem para ele. Emudeceu também. Tudo era bom demais para dois seres tão imperfeitos e incompletos.

Na rua passava um bloco onde a multidão celebrava, colorida, festejava serpenteando pelas ruas. Celebrando o quê mesmo? Ainda havia algo que se pudesse celebrar? Há muito tempo ela não poderia perceber nada que a permitisse uma alegria assim, franca e simples, feito ciranda de criança.

Ela se disse oprimida. Oprimida e estranha dentro de seu corpo, da casa que ambos montaram, do emprego no qual trabalhava, como se interpretasse o tempo todo algo que não era, e não sobrasse mais nada para si mesma. Sua mudez era apenas um dos reflexos. A perversão era outro. E mais tantos outros reflexos no corpo e no espírito que ela cobrira e escondera por tantos anos, fingindo para si mesma que poderia suportar isso para sempre.

O carro agora trocava de pistas, a força das curvas o empurrava para o lado e ela ziguezagueava subindo a serra de Teresópolis, a tarde caindo recortava sombras e luzes no asfalto. Uma falta de ar no peito, a música berrava de dentro do carro assustando os meninos fantasiados que brincavam na beirinha da estrada.

Levantou-se da cama, da conversa aterradora, seca e breve. Abriu a bolsa de lona e coletou alguns pertences. Na verdade, não queria mais nada daquilo, queria se libertar de tanta roupa, bolsa, sapato, da tanta multidão de coisas que a sufocavam - queria ser livre e só.

Ele permaneceu sentado e não a impediu de sair quando ela disse ‘só vou levar meu carro’.

Não era afeito a escândalos e, além do mais, ele sabia que decisões como aquela não tinham volta. Restava-lhe apenas resignar-se com sua ausência. Na verdade, ela já estava ausente há muito, e ele já tinha reparado, sim, muito embora preferisse não perguntar nada e continuar levando aquela solidão compartilhada. Apenas a presença dela tinha se tornado um alívio de seus medos e carências. Contanto que ela estivesse ali, ainda que diferente e inaudível, tudo estaria em seu lugar.

‘Para onde você vai?' - a voz mal saiu, trôpega e desesperada, quase certa da indefinição da resposta.

‘Não sei’, ela realmente não sabia.

Beijou-o na testa e virou-se rapidamente, antes que a tristeza a puxasse novamente para o lado dele. Antes que a tristeza a deitasse novamente na cama, para que fizessem um sexo mudo, impessoal, morno e vazio, de curar agito do corpo, e fingissem depois que nada acontecia, ainda uma vez mais. E bateu a porta com cuidado.

Ela estava longe de casa, muito longe de tudo aquilo que não era, sequer ouvia as buzinas dos caminhões que cortava na contra-mão da pista. Estranhamente aquela velocidade amansava sua ânsia e lhe trazia paz. Corria para esquecer que esteve imóvel enquanto sua vida desfilava à sua frente.

Estacionou no mirante, antes do pórtico da cidade. Não queria ir à cidade, não, nem gostava dali de modo especial. Quis chegar apenas e exatamente naquele ponto, ao cair da noite, quando ainda se é capaz de ver a planície e suas ondulações verdes e amplas, quando se é capaz de reparar o colorido carnavalesco do poente, entre lilases e púrpuras e laranjas e azuis de todas as matizes, e ver a escuridão engolindo tudo, avançando, tomando posse do mundo, assim como ela mesma se sentia, agora sem máscara, sendo engolida por aquele pano negro de mudez e apatia que a consumia, cada vez mais. Uma beleza melancólica e quase triste, aquele espetáculo da luz que se despede.

Um turista ao lado lhe perguntou as horas, ela estática, os olhos fechados com força, mas não havia mais como pudesse responder. E ele a balançou firme pelo braço.

Delicadamente, ela abriu os olhos.

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Prova de poesia